A aplicação das recomendações da TCFD para as empresas não financeiras e como elas vão se preparar para prover a informação de que o mercado necessita foram alguns dos pontos que permearam o debate que sucedeu as palestras do 56º Café com Sustentabilidade FEBRABAN. A mesa, mediada por Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de baixo carbono do Instituto Clima e Sociedade, abordou questões práticas inerentes às recomendações e os próximos passos para todos os setores. Participaram Laura Albuquerque, assessora sênior do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Roger Oey, especialista sênior em Renda Variável da Bloomberg, Marcelo Pasquini, do Bradesco, e Marcelo Golovaty, head de Risco Integrado do Santander.

O CEBDS reúne 60 grupos empresariais de diferentes setores, como energias renováveis, óleo e gás, bancos, seguradoras, indústria química, mineração, entre outros e coordena agendas ligadas a sustentabilidade. As recomendações da força-tarefa do FSB foram uma demanda trazida pelos bancos que participam da Câmara de Finanças Sustentáveis da organização, e há cerca de um ano o CEBDS iniciou um trabalho para entender quais são os impactos para cada setor que compõe a entidade.

De acordo com Laura Albuquerque, a primeira etapa foi realizar uma análise de aderência para identificar quais iniciativas de relato e questionários são convergentes à TCFD (relato integrado, CDP, GRI, entre outras) e também identificar as melhores práticas das empresas. “Conseguimos mapear nove grandes empresas dos setores de energia, transportes, construção e agronegócio e em cada uma encontramos as melhores práticas para as recomendações”, disse Laura. A fase atual é de estabelecer um plano de ação para o cumprimento das recomendações, que deverá ser divulgado em abril de 2019.

Na etapa de análise de aderência, o olhar dos analistas do CEBDS se voltou para os quatro principais pilares das recomendações – governança, estratégia, gestão de riscos e metas e métricas e como esses temas estavam retratados nos relatórios de sustentabilidade das companhias. A conclusão foi de que gerenciamento de riscos tem maior aderência nas empresas; governança e estratégia são temas com aderência de média para baixa; enquanto ações relacionadas ao pilar metas e métricas são mais inicipientes. No tema governança, a recomendação da TCFD pede transparência dos processos de decisão, mas as empresas dão transparência à sua estrutura de governança, como seus organogramas e composição do Conselho de Administração. Dificilmente detalham seus processos de tomada de decisão e, quando o fazem, não é no relatório financeiro, como pede recomendação da TCFD – geralmente essas informações vem no relatório de sustentabilidade.

No pilar da estratégia, a análise apontou maior foco nos cenários regulatórios, com ênfase nos riscos de transição, de curto prazo, mais do que nos riscos físicos. As empresas consideram os cenários de precificação e tributos sobre o carbono como um risco de transição mais preocupante do que o impacto físico nas suas estruturas, logística e cadeia de fornecimento. No tema gerenciamento de risco, a dimensão com mais aderência, as empresas dão transparência para o processo de identificação do risco, avaliação e gerenciamento – e para cada um dos riscos, algumas das empresas indicam ação mitigatória e sua urgência.

Laura Albuquerque

"O passo a passo que as empresas terão de seguir para internalizar as recomendações começa por entender a quantificação de impacto financeiro e avaliar os riscos climáticos inerentes ao seu negócio"

Laura Albuquerque, CEBDS

Mas é no quesito métricas e metas que reside o maior desafio. Nos últimos anos, as empresas e os bancos passaram a investir na mensuração de suas emissões de gases de efeito estufa, sendo os relatórios de emissões um elemento bastante utilizado. “Mas muito do que se vê é um relato quantitativo de quanto a empresa emite nos escopos 1,2 e 3. Quando se começa a exigir indicadores, como a emissão por produto, por exemplo, falta essa informação nos relatórios”, diz Laura. Além de olhar cenários, as empresas devem analisar os impactos financeiros advindos dos riscos de transição – por ser mais exposto, o setor de energia tende a reportar de forma mais abrangente os cenários climáticos.

Roger Oey, especialista sênior em Renda Variável da Bloomberg, falou sobre as ferramentas ofertadas hoje pela agência de notícias e informações financeiras que podem auxiliar os bancos a identificar a exposição de suas carteiras de crédito. Um dos seus produtos mais conhecidos, o Terminal Bloomberg, criado em 1981 e utilizado por mais de 300 mil tomadores de decisão em todo o mundo, fornece uma ferramenta de mapas que permite a combinação de vários sets de informação – plantas industriais, de geração de energia, onde houve eventos climáticos como furacões ou terremotos, entre outras. “Ao combinar várias camadas de informação, a ferramenta permite saber quais seriam os clientes mais afetados por determinado evento climático”, diz Oey. Essa plataforma foi utilizada no piloto da UNEP-FI para as modelagens de risco para carteiras de crédito.

Roger Oey

"Enquanto há uma curva decrescente do uso de petróleo, os investidores esperam uso maior de outras energias, como a solar, que traz novas oportunidades na mineração de cobalto e lítio, por exemplo"

Roger Oey, Bloomberg

A demanda do mercado para informações de cunho socioambiental está levando agências como a Bloomberg a investir na captura de dados com esse perfil. Como trabalha com todos os setores da economia, a empresa aumentou o escopo dos dados que está disponível para os clientes. Uso de água, energia e emissões de carbono estão entre os dados ambientais mais utilizados, e a demanda cresce conforme ciclos. “Nas situações de seca, por exemplo, há maior demanda por informações sobre gestão dos recursos hídricos, empresas que consomem mais água, impactos na operação e resiliência”, disse Oey.

A geração de conteúdo sobre energias renováveis também é intensa – a consultoria Bloomberg New Energy Finance (BNEF), que pertence ao grupo, produz mais de 700 relatórios anuais sobre o tema e tem apontado que o interesse de investidores no financiamento para energia renovável tem cada vez mais um componente de oportunidade, não só como mitigação de riscos. Na América Latina, é crescente o interesse dos países, especialmente Chile, Peru e México, em mecanismos de rating das empresas com base nos riscos climáticos.

Marcelo Golovaty

"Houve uma mudança: o banco sai de uma visão apenas dos riscos financeiros clássicos (liquidez, mercado) para os riscos não financeiros, mais intangíveis, tais como aspectos reputacionais, cibernéticos, tecnológicos e operacionais"

Marcelo Golovaty, Santander

Com a maior frequência de pedidos de informação relacionados a questões ambientais e de mudança do clima, uma das tendências será a busca de dados por meio de ferramentas de inteligência artificial (AI), na avaliação de Marcelo Pasquini, do Bradesco. As agências de classificação de risco já vêm solicitando mais dados sobre esses temas e, com as recomendações da TCFD, a tendência é que os bancos também demandem mais informações sobre gestão climática de seus clientes. “Já vemos o uso da inteligência artificial acontecer em vários setores e não será diferente na questão ambiental, por isso ter relatórios e publicações que já tenham esse tipo de informação organizada é cada vez mais importante”, disse Pasquini.

Um dos pioneiros no Brasil a estruturar uma área de risco socioambiental, o Santander utiliza várias fontes de dados para análise no processo de concessão de crédito, desde o posicionamento socioambiental do cliente, aspectos legais e de compliance e, recentemente, passou a incorporar variáveis como exposição ao stress hídrico e possível impacto aos negócios. “Nossa área de risco socioambiental está estruturada há bastante tempo e houve impactos na carteira, pois a avaliação pode levar à não concessão de crédito, dependendo de algum aspecto que não é cumprido pela empresa. Isso é uma realidade e esse modelo segue em evolução”, disse Marcelo Golovaty, head de Risco Integrado do Santander. Segundo o executivo, os testes estresse são ferramentas importantes para que os riscos socioambientais sejam incorporados à estratégia do banco, pois permitem incorporar variáveis socioeconômicas, relativas ao próprio negócio e de longo prazo ao processo de decisão.

Por outro lado, o rigor na análise de risco socioambiental trouxe oportunidades de negócios para a instituição. Em 2018 o Santander concedeu um total de R$ 3,3 bilhões em crédito para negócios socioambientais, o que inclui financiamento a projetos de energia renovável, microcrédito e apoio a microfinanças. Outra estratégia com bons resultados é no campo do agronegócio: o Santander criou uma linha de financiamento voltada à agricultura de baixo carbono e optou por estar mais próximo do produtor rural, com agências especializadas no atendimento a empresários do segmento de agricultura e pecuária.