Rafael Mol

Após a apresentação do roadmap da FEBRABAN, o 56º Café com Sustentabilidade trouxe experiências práticas de instituições financeiras que já estão testando a aplicação das recomendações da força-tarefa do Financial Stability Board. Entre os bancos brasileiros que começaram a testar as recomendações da força-tarefa do FSB estão Itaú Unibanco e Bradesco, que participaram de um piloto com outros 14 bancos internacionais no âmbito da UNEP-FI, o programa de finanças sustentáveis da ONU. Rafael Mol, especialista de Risco Socioambiental no Itaú Unibanco, traçou um histórico das estratégias de sustentabilidade do banco e compartilhou a experiência de fazer parte do piloto de testes da TCFD.

"A economia vai mudar, os custos das empresas vão mudar com os possíveis efeitos de uma precificação do carbono, talvez com queda de receita em alguns segmentos. Os portfólios de crédito vão mudar também, por isso é importante medir o impacto na qualidade de crédito das empresas"

Rafael Mol, Itaú Unibanco

Os participantes da iniciativa piloto da UNEP-FI foram convidados a aplicar duas metodologias relacionadas a métricas, uma para riscos de transição e outra para riscos físicos. O processo foi realizado em três etapas – na primeira, os bancos estabeleceram cenários e premissas macroeconômicas para inseri-los em modelos matemáticos simulando cenários de mudanças climáticas. Nas etapas seguintes, os passos foram medir o impacto das mudanças na economia e nas empresas advindas da questão climática (mudanças nos custos, receitas e investimentos das empresas) e, por fim, mensurar o impacto desses cenários no portfólio de crédito, com testes de stress para as carteiras. O objetivo era responder questões sobre a qualidade do crédito nesses cenários, se haveria alteração na PDD (Provisão dos Devedores Duvidosos) do banco e a quais outros riscos a instituição estaria sujeita.

“Uma das tarefas foi aplicar teste de stress nas carteiras de agronegócio para medir o impacto das mudanças climáticas para a qualidade do crédito”, afirmou Mol. Foram realizados dois estudos de caso com 130 clientes produtores rurais, com R$ 4 bilhões em carteira e prazo médio de um ano e meio dos financiamentos, levando-se em conta cenários de aquecimento global entre 2 °C (para riscos de transição) e 4 °C (para riscos físicos) até 2040. As modelagens apontaram que os impactos foram mais significativos no setor de pecuária bovina, enquanto o setor de açúcar e álcool teve menos perdas – mas de modo geral, nenhum cliente se beneficiou diretamente das mudanças climáticas.

Para os segmentos de grandes empresas, o Itaú avalia a variável de risco socioambiental nos modelos de rating de crédito. O rating influencia diretamente o custo das operações, a alocação setorial, tipos de garantia e os produtos a serem oferecidos. A área de risco do banco identificou que as mudanças climáticas podem impactar 25 diferentes setores, que representam mais de 65% do crédito concedido do total da carteira do CIB (clientes corporativos) no prazo de três e dez anos. Em maio de 2018, após realizar questionários setoriais, a instituição divulgou a metodologia empregada na publicação “Risco Socioambiental no Portfólio de Crédito CIB - Corporate Investment Bank), disponível em seu site. “O Itaú avalia os riscos socioambientais das empresas através de uma visão setorial, que impacta o risk rating da empresa. Isso está internalizado em todos os nossos modelos para grandes empresas”, explicou.

Em sua palestra, o executivo do Itaú Unibanco não só abordou riscos advindos do aquecimento global, mas também falou de oportunidades. Mol detalhou outras ações de mitigação das mudanças climáticas na própria empresa e produtos financeiros que trazem uma visão de oportunidade para as questões ambientais. Signatário dos Princípios do Equador desde 2004, o Itaú adotou padrões de desempenho preconizados pela International Finance Corporation (IFC) para os financiamentos de projetos de longo prazo. As emissões de gases de efeito estufa são quantificadas no escopo 1 e 2 para projetos acima de 25 mil toneladas de CO2 equivalente e, acima de 100 mil toneladas de CO2 equivalente, o banco realiza uma análise de alternativas junto ao empreendedor para buscar melhores práticas do ponto de vista climático.

Na área de gestão de ativos, o banco aderiu aos Princípios para o Investimento Responsável (PRI) e tem utilizado uma ferramenta de precificação do carbono sobre as ações negociadas na B3 até 2021 – do preço da ação são descontados o risco climático, de modo que o analista possa avaliar a escolha do investimento mais embasada sobre os riscos climáticos. No segmento de pessoa física, o banco prepara para este ano o lançamento de novos produtos com viés de sustentabilidade, entre eles o crédito para painéis de geração solar fotovoltaica e financiamento de carros elétricos.

O Bradesco, que se envolveu no processo de formulação das recomendações da TCFD desde o início – a vice-chair da iniciativa, Denise Pavarina, é ex-diretora executiva do banco – também participou do piloto da UNEP- -FI. De acordo com Marcelo Pasquini, head de Sustentabilidade Corporativa do Bradesco, a experiência com a TCFD no âmbito do piloto da UNEP-FI mostrou que todas as instituições financeiras participantes enfrentaram o mesmo desafio: o acesso a informações de caráter socioambiental para serem utilizadas em modelos de crédito e rating. “À medida que desenvolvemos cenários e colocamos todas essas variáveis juntas, percebemos que a necessidade de informações sobre cada negócio e cada setor que avaliamos é maior do que a quantidade de dados que está disponível atualmente”, afirmou. O desafio não é apenas dos bancos, mas também das empresas do setor não financeiro – que terão de mudar a forma como encaram os próprios riscos e sua gestão.

Marcelo Pasquini

"Muito mais do que desenvolver modelos de crédito, de rating e se proteger dos riscos que as empresas apresentam, os bancos vão ter que trabalhar com elas para que se preparem melhor para que entendam os riscos que estão enfrentando e como serão mitigados"

Marcelo Pasquini, Bradesco

Agora o Bradesco está em fase de troca de informações com outros bancos para uma segunda fase dos pilotos da iniciativa da UNEP-FI, cujo objetivo é aprofundar os achados encontrados. O banco também está desenvolvendo com as Nações Unidas um novo conjunto de diretrizes, os Princípios para a Responsabilidade Bancária, alinhado com o PRI e também com a área de Seguros. O objetivo, segundo Pasquini, é medir os impactos das iniciativas de sustentabilidade do banco para a sociedade. “Queremos que deixem de ser só estratégia de sustentabilidade e estejam integrados aos negócios do banco”, explicou. No Bradesco, o Comitê de Sustentabilidade é diretamente vinculado ao Conselho de Administração, o que facilita o trâmite para que pilotos na área sejam efetivamente aplicados.