Eduardo Nagura
Luciano Schweizer
Morenno Macedo
Rodrigo Marcolino

Após a apresentação do estudo e das palestras dos representantes da ABSOLAR, do BID e da ABNT, o Café com Sustentabilidade FEBRABAN seguiu com um debate sobre a ferramenta de financiamento para a geração distribuída da energia solar fotovoltaica, que teve a participação de Eduardo Nagura, do Santander; Luciano Schweizer, especialista do BID; Morenno Macedo, da Caixa Econômica Federal e Rodrigo Marcolino, da ABSOLAR, que falou em nome da empresa da qual é sócio, Axis Renováveis. A moderação do debate ficou a cargo de Paula Peirão, do FGVces, e os principais temas discutidos foram a viabilidade da ferramenta e os principais desafios das instituições financeiras no financiamento da fonte solar fotovoltaica.

Eduardo Nagura, superintendente da área de Financiamento de Projetos do Banco Santander, abordou como o banco privado tem realizado financiamentos de sistemas solares fotovoltaicos, voltados para pessoa física. A principal dificuldade para análise dos projetos hoje reside na equipe e metodologia para realizar as análises. "Hoje, temos uma equipe de financiamento de projetos que analisa geração centralizada e temos limitações na alocação dessa equipe para olhar a quantidade de projetos que temos recebido em geração distribuída", diz Nagura. Para atender a demanda de projetos de pessoa jurídica – diversos projetos que chegam para análise todas as semanas, tanto para geração centralizada quando distribuída – seria necessário destacar mais pessoas, inclusive da área de risco, aprofundando ainda mais o bom conhecimento técnico da instituição. Por isso a ferramenta desenvolvida pela FEBRABAN deverá ser de bom uso para o banco. "O objetivo é ter um produto flexível para geração distribuída, mais leve em termos de garantias e precificação", diz o executivo.

Apesar das dificuldades do mercado, o Brasil é, ao lado do México, a bola da vez do movimento rumo ao financiamento das tecnologias de geração solar fotovoltaica na América Latina, na avalição de Luciano Schweizer, especialista líder do BID.Seguem no ranking Colômbia e Costa Rica, em uma escala um pouco menor. O Brasil está sendo visto como um bom cenário para a expansão da energia fotovoltaica por ter um modelo de sistema energético que tem atraído um volume significativo de investimentos, segundo Schweizer.

"O modelo energético brasileiro tem participação expressiva do setor privado, o que tem colocado o país no topo da lista do Banco Mundial de participação privada em investimentos de infraestrutura. Alguns aperfeiçoamentos são necessários, mas o modelo funciona"

Luciano Schweizer, BID

O desafio é como o Brasil poderá passar a liderar no avanço da adoção da energia solar fotovoltaica. Segundo o especialista, os mecanismos que o BID está desenvolvendo em conjunto com parceiros relevantes são uma contribuição para que as instituições brasileiras consolidem sua posição de liderança no continente. É neste sentido que o BID quer conduzir suas cooperações técnicas e é o que tem guiado a participação do organismo no âmbito do Laboratório de Inovação Financeira (LAB).

Mas ainda falta trazer mais atores para o "jogo" da energia solar fotovoltaica. "O momento é de transição. Alguns pilotos foram iniciados e há oportunidades de alinhar interesses de atores importantes neste setor, como são as distribuidoras de energia, que ainda não tiveram seus interesses alinhados", diz o especialista do BID. Segundo ele, essa cooperação será importante porque as tecnologias de geração solar fotovoltaica têm o potencial de ajudar o setor elétrico a postergar investimentos, além do potencial de ser um mecanismo de geração ou cogeração em áreas de interesse social, onde o acesso à energia é deficitário ou há perdas de energia provocadas por ligações irregulares.

Ampliar o fomento e o acesso a fontes de energia renovável pela população de baixa renda são dois dos pilares em que a Caixa Econômica Federal vem trabalhando em suas políticas de sustentabilidade. Um exemplo vem de Juazeiro (BA) onde foi instalada uma usina de energia solar fotovoltaica sob a perspectiva de geração de renda para famílias do Programa Minha Casa, Minha Vida. O banco público analisa a adaptação do modelo para outras regiões, com a premissa de não elitizar o acesso à energia solar fotovoltaica, e a condição de que a economia gerada pelos sistemas seja suficiente para pagar o financiamento dos equipamentos nas regiões de baixa renda.

Recentemente, o lançamento da linha "Fundo Clima – Máquinas e Equipamentos Eficientes" pelo BNDES levou a uma ampliação na demanda por financiamentos para energia solar fotovoltaica, mas na prática o produto não pôde ser ofertado pela Caixa porque não foi possível viabilizar a concessão do crédito nas condições de remuneração definidas pelo BNDES. "Vivemos um boom na procura de financiamento para energia solar fotovoltaica com recursos do Fundo Clima, mas a iniciativa não foi exitosa. Nossa área de precificação não conseguiu encontrar uma forma de tornar a linha operacional", diz Morenno Macedo, gerente executivo de Sustentabilidade da Caixa Econômica Federal. Segundo ele, estão em andamento conversas como o BNDES com o objetivo de revisar a linha e negociar as taxas de juros.

A oferta de um produto dedicado à energia solar fotovoltaica ainda é uma lacuna no portfólio da Caixa, mas o tema vem sendo considerado prioritário na agenda de sustentabilidade da instituição. Um programa de incentivo a negócios sustentáveis deverá ser lançado em breve pelo banco, com condições favoráveis de taxas de juros e prazos para negócios sustentáveis, incluindo energia e outros setores.

"A Caixa tem um portfólio vasto, mas não tem um produto exclusivo para o financiamento de energia solar fotovoltaica. Respondendo às provocações do mercado, o tema será uma bandeira de sustentabilidade"

Morenno Macedo, Caixa Econômica Federal

Rodrigo Marcolino participou do debate trazendo a visão da Axis Renováveis, empresa do segmento de locação de energia solar fotovoltaica da qual é diretor geral. No modelo, já bastante difundido no setor, a empresa é responsável por várias etapas do processo, desde a prospecção fundiária, regularização do imóvel onde a usina de geração solar fotovoltaica será instalada, licenciamento ambiental, tratativas junto à concessionária distribuidora e pela gestão da operação e manutenção na usina. E também é responsável por fazer o investimento no sistema gerador, em um modelo em que o cliente final, seja pessoa física ou jurídica, paga ao locador uma parcela, que deverá ser inferior à economia que o sistema proporcionar.

Na prática, o cliente do serviço não precisa tomar um financiamento para ter acesso à energia gerada por painéis fotovoltaicos. "No modelo de locação, as únicas coisas que o cliente vê são redução na conta de luz no final do mês e o pagamento de uma prestação para a empresa locadora", diz Marcolino. Segundo ele, o modelo deve ajudar a popularizar o mercado de geração distribuída, pois traz a vantagem de não onerar o balanço das empresas.

Marcolino afirma que a iniciativa das instituições financeiras de buscar alternativas de financiamento diretas para o tomador/consumidor da energia são bem vindas, mas o modelo de locação traz vantagens também para os bancos, ao lidar diretamente com empresas que centralizam as operações de geração, o que ajuda a reduzir os custos de transação. "As empresas que já trabalham no modelo de locação têm balanços mais robustos do que um tomador de crédito final. Elas têm expertise para organizar a estrutura de investimento no ativo de uma forma mais eficiente, contribuir com capitais próprios, dar contrapartida de investimentos, participar de pools de projetos com diferentes perfis de compradores. Tudo isso reduz o risco das operações", diz Marcolino.