Annelise Vendramini - Trabalho busca mostrar setores mais expostos ao risco carbono e
identificar temas materiais para a análise dos bancos

A adoção de sistemas de precificação de carbono já é uma realidade em cerca de 40 nações e mais de 20 cidades, estados e regiões em todo o mundo. Estima-se que 15% das emissões globais de gases de efeito estufa já são cobertas por algum instrumento de precificação do carbono. Na América Latina, países como Chile, México e Colômbia já adotam mecanismos, e discute-se a criação de um potencial mercado comum de carbono.

Na 53ª edição do Café com Sustentabilidade FEBRABAN foram apresentados dois estudos sobre o tema. O primeiro, realizado em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces), identificou tendências para empresas e bancos ligadas às emissões de gases de efeito estufa e avaliou, por meio de simulações, o potencial impacto da precificação de carbono nos resultados de empresas de setores importantes para a economia brasileira. O segundo, elaborado em parceria com o Carbon Disclosure Project (CDP), organização internacional que fornece um sistema global de dados ambientais voltados a investidores e mercado, mapeou as práticas adotadas por empresas brasileiras para gestão dos riscos e oportunidades da mudança do clima.

Annelise Vendramini, coordenadora do Programa de Pesquisa em Finanças Sustentáveis do FGVces, fez a apresentação do primeiro estudo, realizado ao longo de um ano em parceria com a FEBRABAN. O objetivo do trabalho foi discutir os potenciais impactos da precificação de carbono para a economia brasileira; compreender como os bancos e as empresas estão conduzindo a gestão do risco carbono, além de identificar temas de materialidade a serem avaliados nessa gestão de risco.

Não faltam motivações para se pensar na gestão do risco carbono. Uma delas é o projeto Partnership for Market Readness (PMR), trabalho concebido pelo Banco Mundial e liderado no Brasil pelo Ministério da Fazenda com o objetivo de avaliar a conveniência da adoção de um processo de precificação de carbono no país e qual seria o modelo mais adequado, entre tributação e mercado de emissões. O projeto, do qual a FEBRABAN faz parte, inclui estudos que terão seus resultados publicados em 2019.

Outra grande motivação é a Força Tarefa Relacionada à Transparência das Informações Climáticas, criada no âmbito do G20 e do Financial Stability Board (FSB). O relatório da iniciativa, divulgado em junho de 2017, propõe vários elementos para a avaliação do risco climático e está levando investidores e instituições financeiras a uma percepção de que a mudança climática é relevante para o binômio risco/retorno dos investimentos. Por fim, a Resolução 4.557/2017 do Banco Central trata, no artigo sexto, do risco socioambiental como importante fator para o processo de gerenciamento de risco das instituições financeiras.

“A discussão está entrando em uma nova etapa: de considerar a questão climática como um elemento de risco para os negócios. É o risco carbono”

diz Annelise Vendramini

O escopo do trabalho foi realizar uma analise quantitativa, com o objetivo de avaliar qual seria o impacto financeiro (sobre lucro e Ebitda) de empresas brasileiras listadas na Bolsa de Valores, caso tivesse sido instaurado um processo de precificação do carbono no país no período de 2010 a 2015, além de identificar os setores sensíveis da economia brasileira que precisam estar mais atentos à questão climática e de precificação do carbono. Também foi feita uma análise qualitativa, onde foram avaliados elementos sensíveis da gestão para entender o que ocorre na prática das empresas em relação a este tema.

Metodologia - O estudo analisou uma amostra de 21 empresas listadas no Ibovespa (exceto o setor de serviços) que publicam relatórios de emissões de gases de efeito estufa e pertencentes a setores relevantes para a carteira de crédito dos bancos. A próxima parte da equação, explicou Vendramini, era definir o preço do carbono. Como não era objetivo do estudo calcular esse valor, recorreu-se a dois estudos que trabalham com cenários de preços de carbono. No primeiro, realizado pelo professor Ângelo Gurgel, também da FGV a pedido da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), foi considerado o agregado da economia brasileira em dois cenários: um de tributação e um de cap&trade. O resultado da modelagem é o preço do carbono variando entre US$ 10 a US$ 100/tonelada de CO2 em um cenário de tributação (a variação de preços depende do setor, já que os custos marginais de abatimento do carbono são diferentes por setor); e de US$14/tonelada no cenário cap&trade. O cálculo de Gurgel e equipe levou em consideração os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris (as NDCs), e os custos de redução de emissões de diversos setores da economia.

O segundo estudo utilizado para compor o preço do carbono na modelagem, "Report of the High-Level Commission on Carbon Prices" considerou o preço necessário para se atingir o Acordo de Paris. Nele, os preços variam de US$ 40 a US$80/tonelada em 2020 e US$ 50 a US$ 100 em 2030. "Esses foram os preços utilizados para os cálculos, mas não significa que serão os preços do carbono num cenário real", salientou Vendramini.

Resultados - Caso o Brasil tivesse adotado alguma política de taxação das emissões de carbono no período entre 2010 e 2015, as empresas brasileiras listadas na bolsa de valores enfrentariam queda nos lucros, mantendo-se tudo o mais constante (como tecnologia e estratégias redutoras de emissões de gases de efeito estufa, por exemplo). Para 81% das companhias, isso significaria uma redução no Ebitda de até 3%; 42,9% teria impacto de até 0,5%, e 9,5% delas poderiam sofrer perdas no Ebitda acima de 10%. Os setores mais afetados teriam sido os intensivos em carbono, como siderurgia, metalurgia, químicos, plásticos, borracha, papel e refino de petróleo, que representam 14,5% da carteira de crédito dos bancos no país em 2015. No cenário de comércio de emissões, 95,2% das empresas tiveram impacto de até 3%.

A modelagem que utilizou os valores de carbono do estudo "Report of the High-Level Commission on Carbon Prices" levou em conta apenas um cenário de taxação e não trouxe resultados díspares em relação à primeira simulação. Nele, 81% das empresas apresentam impacto no Ebitda abaixo de 3%, sendo que 57% a queda no resultado foi de até 0,5%. "A validade desse exercício é apontar fragilidades de empresas e setores que precisam prestar atenção ao potencial risco climático sobre seus resultados financeiros. Do ponto de vista dos bancos, a modelagem sugere o potencial risco de suas carteiras de crédito, que precisa ser observado e gerenciado", disse a coordenadora da pesquisa.

“A Força Tarefa do FSB considera que há dois grandes grupos de risco: o risco de transição e o risco físico associado ao carbono”

O risco de transição, como o nome sugere, está relacionado às mudanças impostas pela migração a uma economia de baixo carbono: são riscos de natureza política e legal, tecnológicos, de mercado e de reputação. A precificação faz parte da categoria de riscos políticos e legais. O desenvolvimento de tributos ou de um mercado de emissões demandará políticas públicas e um arcabouço jurídico, uma vez que os mercados de carbono são altamente regulados. Já os riscos físicos são aqueles associados às mudanças do clima propriamente ditas: eventos climáticos extremos ou crônicos, pelo aumento do nível do mar e adaptações nos ambientes urbanos.

Como mostra o atual cenário global, a precificação de carbono pode vir de dois caminhos não excludentes: política pública estabelecendo o processo de precificação, que pode ser via tributação ou comércio de emissões, ou mesmo um híbrido, utilizado por muitos países. O sistema de comércio de emissões parte de um estabelecimento de qual é o nível de emissões máximo permitido naquela economia; e na tributação, se estabelece o valor do carbono, de modo que as empresas vão mudar seus processos produtivos tendo em vista o preço.

As NDCs resultantes do Acordo de Paris cobrem 96% das emissões globais e muitas delas comtemplam a precificação, então se caminha para um processo de massificação desses mecanismos em todo o globo, acredita Vendramini. Os preços do carbono dentro dessas iniciativas variam muito: vão de valores inferiores a US$1/tonelada até US$ 126/tonelada. Na América do Sul e México já existem iniciativas de tributação de carbono e há uma discussão em curso de se criar um mercado regional de carbono. Para se preparar para o futuro, há empresas que estabeleceram um processo de precificação interna, adotando um preço para o carbono (que pode ser teórico ou baseado na média dos mercados internacionais) e o incluem no seu processo de decisão ou análise de investimentos.

Aprofundamento: uma análise qualitativa da prática das companhias - A segunda parte do estudo, realizada em parceria com o CDP, analisou o que as empresas estão fazendo em relação à gestão do risco carbono. Foram entrevistadas quatro empresas: Braskem, CPFL Energia, Fibria e Vale, seguindo o framework proposto pela Força Tarefa do FSB, que avalia quatro pilares: governança (as empresas possuem instâncias dedicadas à sustentabilidade, com equipes e orçamentos próprios? O tema da mudança climática é considerado estratégico e transita por diferentes áreas da empresa?); estratégia (há drivers diferentes para atuação em gestão do carbono? Há frentes de mitigação?); gestão de risco (as empresas analisam os riscos para os negócios sob condições climáticas imprevisíveis? Consideram planos de adaptação?); métricas e metas (possuem algum tipo de meta de redução das emissões de gases de efeito estufa? Utilizam algum mecanismo de precificação interna de carbono?).

De acordo com Vendramini, foi possível observar estratégias bem definidas na amostra das quatro empresas, onde a questão do clima não está concentrada em uma área única – o tema está disseminado em várias áreas corporativas.

“Práticas dos bancos internacionais variam, mas a maioria adota preços internos para o carbono”

O estudo também buscou conhecer as práticas de cinco bancos internacionais (Credit Suisse, Goldman Sachs, Société Générale, BNP Paribas e IFC) e a brasileira Itaú Asset Management. As práticas variam, mas a maioria adota a precificação interna de carbono, tanto para sua própria gestão de emissões quanto para avaliar o risco de crédito dos clientes. O banco francês Société Générale adota preço interno de carbono desde 2011, em torno de US$ 10/tonelada, e persegue metas corporativas de eficiência ambiental. O americano Goldman Sachs não divulga o preço de carbono que adota, mas utiliza os valores nas operações internas, priorizando data centers e escritórios administrativos. O Credit Suisse usa um preço para financiamentos específicos, mas não para operações internas. Também francês, o BNP Paribas analisa os setores com maior exposição ao risco carbono (óleo e gás, mineração, carvão e alumínio, energia, transportes, construção, cimento) e para cada setor, analisa o impacto médio do preço do carbono, dentro de uma faixa fixada entre US$25 e US$ 40/tonelada)

O IFC definiu o preço do carbono em US$ 38/tonelada e adota a prática de realizar teste de stress do portfólio para project finance de três setores (cimento, químico, energia térmica, que representa 40% dos projetos) com planos de expandir para outros setores. De acordo com Vendramini, já existe um movimento dos bancos internacionais de fazer teste de stress com sua carteira. "A questão não é negar crédito a determinada empresa por não ter bom desempenho na questão climática, mas abrir diálogo para que ela passe a considerar a questão climática em suas estratégias. O papel dos bancos é dar assessoria e financiar essa transição", explica. No Brasil, o estudo analisou o exemplo do Itaú Asset Management, onde a precificação (US$ 12/tonelada) é utilizada como um sinalizador de risco para fomentar o diálogo com o cliente e entender onde estão os potenciais fatores de risco.

O trabalho termina com algumas recomendações: tendo em vista as práticas já assumidas pelos grandes bancos internacionais, já não é suficiente que as empresas façam inventários de carbono – elas precisam ter estratégias bem delineadas de gestão do risco carbono. Para as instituições financeiras, utilizar ferramentas de gestão de risco climático, que simulam o impacto da precificação de carbono em indicadores de valoração de ativos, é um bom ponto de partida. Exemplo é a ferramenta online www.invesciente.com.br, desenvolvida no âmbito do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade e Sustentabilidade da FGV.