Após a apresentação dos estudos do FGVces, do CDP e da carta compromisso do CEBDS, o 53° Café com Sustentabilidade FEBRABAN abriu espaço para um debate conduzido por Paula Peirão, coordenadora do programa de Finanças Sustentáveis do FGVces, do qual participaram Azim Akbaraly, especialista de Responsabilidade Social Corporativa do BNP Paribas Brasil; Renato Eid Tucci, responsável pela Área de Integração ESG da Itaú Asset Management; e João Carlos Augusti, gerente de Meio Ambiente Florestal da Fibria, que contribuíram com a visão do setor financeiro e produtivo sobre a precificação do carbono no Brasil.

Azim, do BNP Paribas Brasil e membro da Comissão de Sustentabilidade da FEBRABAN, comentou sobre os estudos do FGVces e CDP e ressaltou que, nos vários campos da economia brasileira, as empresas estão avançando em considerar as mudanças climáticas em suas estratégias corporativas. Segundo ele, os dados trazidos pelo CDP, em particular, mostram o quanto as empresas estão associando o clima à gestão de risco. "As instituições financeiras e a sociedade em geral querem ver esse movimento acontecer, para que se consiga manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C", afirmou.

Azim ressaltou ainda que as instituições financeiras têm uma responsabilidade a mais em relação a outros setores da economia, que é observar o risco que as mudanças climáticas representam para sua carteira de crédito e operações – o que é importante não só para o banco, mas também para a resiliência do sistema financeiro como um todo.

Em relação ao tema, o BNP Paribas trabalha em várias frentes – do apoio a pesquisas sobre mudanças climáticas desde 2010, por meio de sua fundação; até o gerenciamento das próprias emissões, com a meta de reduzir 25% da pegada de carbono por empregado até 2020. No final de 2017, o banco francês decidiu tornar-se uma empresa neutra em carbono: as emissões de suas operações que não conseguir reduzir serão compensadas com projetos florestais no Quênia e na Índia. No que tange ao próprio negócio, há políticas de gestão de risco socioambiental, onde monitora critérios de desempenho das empresas. Em 2017, o BNP Paribas decidiu não financiar mais projetos de carvão, mineração de carvão térmico e exploração de petróleo e gás não convencionais, como o gás de xisto e areias betuminosas. O banco também restringiu o financiamento à exploração de petróleo no Ártico. O BNP Paribas também enxerga a questão climática como uma oportunidade de acompanhar seus clientes na transição para um mundo de baixo carbono, com times dedicados ao desenvolvimento de produtos de finanças sustentáveis e com um apoio forte às energias renováveis.

Mais recentemente, o BNP Paribas decidiu integrar na avaliação de crédito um preço implícito do carbono de forma a entender os riscos físicos e de transição que as mudanças climáticas trazem para clientes em setores mais expostos. O BNP Paribas também monitora sua carteira para pilotar a matriz energética que financia. Segundo Azim, isso tem sido incentivado na Europa pelos reguladores, porque eles entendem que a transição para um mundo de baixo carbono deve ser feita de maneira progressiva, para proteger a economia contra riscos sistémicos. Azim afirmou que essas mudanças devem apoiar-se em maior transparência e diálogo sobre os riscos climáticos – como coloca a própria Força-Tarefa do FSB.

“O horizonte do risco climático era visto como distante, mas está pouco a pouco se materializando”

Azim Akbaraly, BNP Paribas

Renato Eid Tucci, responsável pela gestão das estratégias Beta e pela integração de critérios ESG (sigla para ambiental, social e governança) na análise de investimentos da Itaú Asset Management, fez um breve histórico da atuação da gestora de ativos no campo da sustentabilidade. "Esta não é uma corrida de 100 metros. É uma jornada que vem sendo desenhada nos últimos 15 anos com o lançamento do primeiro fundo com esses critérios", afirmou. Em 2008, a gestora se tornou signatária dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI) das Nações Unidas e vem desenvolvendo ferramentas para integrar a materialidade das questões ESG aos portfólios. Em 2010 elaborou um modelo para a precificação do tema em renda variável e em 2014 expandiu a ferramenta para a renda fixa.

O modelo adotado abrange oito dimensões e analisa o desempenho das empresas nos critérios sociais, ambientais e de governança. Na parte de mudanças climáticas, um dos eixos sensíveis é a precificação do carbono, explicou Tucci. "Temos uma curva de carbono que se inicia em 2020 e evolui até 2050. O grande desafio é saber qual preço utilizar: se for US$ 0,10/tonelada, talvez não tenha um problema. Se for US$ 100/tonelada, talvez inviabilize muitos dos negócios que estão aí", afirmou. Segundo ele, essas ferramentas elevaram o AUM (ativos sob gestão, na sigla em inglês) coberto pela análise de sustentabilidade de 10% no início desta década para mais de 90% atualmente.

“Hoje é difícil ter um produto da Itaú Asset Management que não esteja coberto pela integração ESG. Isso se reflete em benefícios para nosso cotista”

Renato Eid Tucci

Não é de hoje que empresas produtoras de commodities e dependentes do capital natural estão sob intenso escrutínio de organizações da sociedade civil e esse quadro tende a se acentuar, afirmou João Carlos Augusti, gerente de Meio Ambiente Florestal da Fibria, que trouxe ao debate a visão do setor produtivo. A empresa exporta entre 90% e 95% da produção de celulose e está exposta a clientes, investidores e sociedade, que questionam suas ações em relação a mudanças climáticas e outros fatores socioambientais.

Por isso a Fibria atua em duas frentes de trabalho: adaptação e mitigação. "Uma empresa cuja matéria-prima vem de florestas está 100% exposta às mudanças climáticas. Tivemos eventos recentes de baixa precipitação e altas temperaturas, que tem afetado a nossa produção de madeira", afirmou Augusti. Segundo ele, tanto investidores quanto clientes percebem esse risco, que é um dos principais drivers da área de pesquisa da Fibria, que está constantemente buscando desenvolver novos clones e técnicas de manejo do eucalipto, adaptados às mudanças climáticas.

Os extremos climáticos também afetam as indústrias. "Se faltar água ou chover demais, corremos risco também", ressaltou o diretor. A empresa já enfrentou problemas com "quebra de safra" de eucalipto que abastece a unidade industrial de Aracruz (ES), em razão de seca nos últimos três anos, e quase teve a fábrica de Jacareí (SP) inundada por uma cheia do Rio Paraíba do Sul, há cinco anos. Para estas situações medidas preventivas e corretivas são desenvolvidas buscando eliminar os riscos.

Na mitigação são trabalhadas questões de comunicação direta e transparente, a exemplo dos investidores com reuniões e as plataformas do CDP e TCFD, quanto as regulatórias. Augusti dá como certa a adoção de um mecanismo de precificação do carbono no Brasil nos próximos dois anos e já se prepara para esse cenário, adotando um preço interno de carbono – são US$ 5/tonelada em projetos florestais, US$ 10/tonelada para projetos industriais e de logística, e US$ 30/tonelada para os projetos que ainda vão sair do papel. No ano passado, a empresa também viu uma oportunidade de captação e fez sua primeira emissão de green bonds. "Em road shows atingimos um público maior de investidores e vimos que cerca de 40% dão preferência para investimentos verdes", disse o diretor.

“O jogo já está rolando e todas as empresas estão nele, seja as mais carbono-intensivas até as menos. Mesmo as menos atingidas vão buscar matérias-primas nos setores que serão regulados, então indiretamente também serão afetadas”

João Carlos Augusti, Fibria