Juliana Lopes

Estudo do CDP revela que são poucas as companhias que adotam um preço interno de carbono

A compreensão de que o sistema econômico vigente é míope – vê o mundo somente pela ótica econômico-financeira, negligenciado as questões socioambientais - foi a inspiração para a criação do CDP há 18 anos. Os fundadores da organização procuraram representantes do mercado financeiro para propor que eles integrassem as questões ambientais nas análises financeiras, levando o então novato conceito de sustentabilidade para empresas e investidores. O objetivo era forjar uma transformação nos mercados de capitais e tornar a gestão corporativa das mudanças climáticas uma prática de negócios.

“A rede do CDP conta com a participação de 6.000 empresas do mundo todo, mais de 800 investidores, e 100 corporações que solicitam essas informações”

A adesão ao CDP é de caráter voluntário, e o grande fator de êxito é que os pedidos são feitos em nome de investidores e de empresas-âncoras que, na posição de clientes, solicitam essas informações dos seus fornecedores. A iniciativa também abrange cidades – são 540 governos subnacionais que reportam suas estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas. As informações compiladas pelo CDP junto às empresas alimentam uma série de provedores de informação do mercado financeiro, incluindo grandes canais como Bloomberg e Thompson Reuters, na forma de pesquisas, índices, ratings e fundos. Agora, o CDP também passa a contribuir com os estudos da FEBRABAN.

Para o estudo "Práticas Empresariais de Gestão de Riscos Climáticos no Brasil", apresentado durante o 53º Café com Sustentabilidade, foi realizada uma análise quantitativa de 71 empresas brasileiras participantes do programa Climate Change do CDP em 2016, de um total de 120 convidadas, a maioria listadas no índice IbrX100 da B3. Para a análise quantitativa, foram pesquisadas 20 empresas que publicaram inventário de emissões de gases de efeito estufa nos últimos três anos, em alinhamento com o estudo conduzido pela FGV. Também foram observadas experiências internacionais de nove bancos mapeados no universo do CDP.

Juliana Lopes, diretora do CDP América Latina, apresentou os principais destaques do estudo: 79% das empresas afirmam integrar as mudanças climáticas à estratégia dos negócios avaliando cenários futuros e oportunidades; 65% delas integram os riscos climáticos aos processos de identificação e gestão de risco da companhia. "Quando se aprofunda a pesquisa, percebe-se que existem práticas diferentes nas empresas em relação ao risco climático. Há as que trabalham o clima de forma integrada à gestão de risco da companhia; e algumas contam com procedimentos específicos para a gestão do risco climático", explica Lopes.

O estudo do CDP também aprofundou-se na precificação de carbono dentro das companhias, tema que acompanha desde 2013. Da amostra quantitativa de 71 empresas, 17% afirmam utilizar um preço interno de carbono para direcionar seus investimentos; 18% ainda não utilizam desse precedente, mas pretendem fazê-los nos próximos dois anos, mas 62% não usam um preço interno de carbono, nem pretendem adotar essa estratégia nos próximos dois anos – o que equivale a 37 companhias. "Esse é um ponto de atenção para os bancos, principalmente porque em 2019 o governo brasileiro comunicará uma decisão em relação a mecanismos de precificação de carbono", afirma Lopes. Segundo ela, esse grupo poderia ser prioritário para um engajamento.

A precificação interna de carbono é uma abordagem importante, pois ao incorporar os preços das emissões aos orçamentos e decisões de investimento, permite integrar os riscos das mudanças climáticas às estratégias de negócios.

Do ponto de vista dos bancos, a pesquisa mostra que há desafios, como a adequação dos processos e rotinas das instituições financeiras para integrar a variável do risco financeiro da mudança climática, mas também oportunidades, como a criação de novos produtos e serviços, em linha com as instruções normativas recentes do Banco Central.