Murilo Portugal

O aumento dos eventos climáticos extremos tem levado os formuladores de políticas públicas a olhar para as questões ambientais e estimular o disclosure de empresas e instituições financeiras em relação a esses dados. As informações de caráter climático e ambiental das empresas passam a ser vistas como estratégicas e ligadas a riscos. Como parte desse movimento, o Financial Stability Board (FSB), organismo composto pelos presidentes de Bancos Centrais e Ministros da área econômica dos países do G20, que monitora e faz recomendações ao sistema financeiro global, criou, no final de 2015, uma força-tarefa com o setor privado para formular um conjunto de orientações para empresas e instituições sobre como dar disclosure às informações de caráter ambiental, especialmente em relação às mudanças climáticas. Esse grupo, multidisciplinar e multinacional, foi formado por 32 membros de todos os continentes, incluindo investidores, bancos, agências de classificação de risco, empresas contábeis e de auditoria e empresas do setor não financeiro.

“Evento comemorativo dos 10 anos do Café com Sustentabilidade FEBRABAN apresentou as recomendações do FSB sobre mudanças climáticas”

Os resultados desse intenso trabalho puderam ser conferidos na 52ª edição do Café com Sustentabilidade da FEBRABAN, realizado no dia 15 de agosto de 2017, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Além da apresentação das recomendações, o evento trouxe um debate sobre como elas podem contribuir para acelerar a transição para a economia de baixo carbono.

O presidente da FEBRABAN, Murilo Portugal, fez a abertura do evento e destacou os principais avanços da agenda da sustentabilidade nas instituições financeiras desde a Declaração de Collevecchio, em 2003, passando pelos Princípios do Equador e os temas tratados ao longo dos 10 anos de debates do Café com Sustentabilidade. Portugal ressaltou que a responsabilidade que os bancos têm em relação às questões socioambientais é proporcional à sua importância para a economia. “Com uma carteira de R$ 2 trilhões, são essas instituições que fornecem financiamentos para que pessoas e empresas possam antecipar suas decisões de consumo e seus planos de investimento”, afirmou o presidente da FEBRABAN. A produção se apoia no trabalho dos bancos, que sinalizam oportunidades e riscos para os agentes econômicos e fomentam as condições adequadas para o bom funcionamento da atividade econômica no país.

“Brasil passou por período de recessão que trouxe atribulações às famílias e empresas, mas o setor financeiro não foi um fator adicional de instabilidade nesse período, como se viu em outros — países foi um amortecedor da crise”

Portugal destacou ainda números comprovando que a economia brasileira está vivendo uma retomada, com melhoria nos indicadores como atividade econômica, nível de emprego e crédito, a despeito do período ainda difícil que o país atravessa. “A atividade agropecuária permitiu que o PIB crescesse 1% no primeiro trimestre, e tivemos sinais de crescimento em outros setores, inclusive no setor industrial, com dois trimestres consecutivos de crescimento, o que não acontecia desde 2013”, ressaltou o presidente da FEBRABAN. Os resultados recordistas no comércio exterior também trazem alento: o superávit na balança comercial acumulado em 2017 até agosto é o maior da série histórica, iniciada em 1998, chegando a US$ 48,1 bilhões.

Além da queda da inflação e da retomada do crédito, a estabilização da taxa de desemprego foi outro ponto positivo destacado por Portugal: segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, houve a criação de 163,4 mil empregos formais nos oito primeiros meses do ano (35,5 mil só em agosto), ante 1,32 milhão de postos de trabalho perdidos em 2016. “O nosso setor passou não apenas por um teste de estresse, mas por um estresse real muito forte. Saímos desse período confirmando a solidez e a segurança do setor bancário, mostrando que é bem capitalizado, bem provisionado e líquido”, afirmou. Segundo ele, o Brasil atravessou um período de recessão que trouxe muitas atribulações às famílias e às empresas, mas o setor financeiro não foi um fator adicional de instabilidade nesse período, como se viu em outros países. “Ao contrário, aqui os bancos serviram como um amortecedor da crise”.

O presidente da FEBRABAN destacou ainda que o Brasil está em um processo progressivo de recuperação da estabilidade econômica, que exige a responsabilidade de todos – setor financeiro, empresarial e dos agentes políticos, e ressaltou a importância das reformas, fundamentais para o equilíbrio fiscal e para aumentar eficiência da economia. Portugal concluiu afirmando que, nos 50 anos de atuação da FEBRABAN, o Brasil assistiu a uma evolução do setor bancário, que não só sobreviveu a desafios sucessivos, mas foi capaz de aprender e aperfeiçoar sua estrutura, de aumentar a qualidade das decisões e dos serviços prestados à população. “É uma história longa de superação e consolidação, sem deixar de cuidar do desenvolvimento sustentável e de suas tarefas nas quais hoje estamos engajados”, afirmou.