Gilson Finkelsztain

As recomendações da força-tarefa do FSB e sua importância para disseminação das informações relacionadas a mudanças climáticas foi um dos destaques da palestra de Gilson Finkelsztain, presidente da B3 – Brasil, Bolsa, Balcão. Ele é um dos signatários da Carta de Apoio à força-tarefa, um compromisso voluntário de empresas e instituições, capitaneado pelo ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, para buscar engajamento para o tema. “Assinar essa carta foi uma decisão natural: a agenda de sustentabilidade é estratégica para nós e trabalhamos para estimular sua adesão junto aos nossos stakeholders; especialmente investidores, analistas e empresas listadas”, afirmou Finkelsztain. Segundo ele, a sustentabilidade não é vista pela bolsa como uma temática acessória: como o próprio trabalho da força-tarefa demonstrou, as questões sociais, ambientais e de governança são intrínsecas ao negócio. “Estamos falando de riscos e oportunidades que ainda não são tão óbvios e comprováveis, muitas vezes não são fáceis de mensurar como os riscos ligados à agenda econômica, mas estamos caminhando nessa direção”, disse.

A B3 tem um compromisso histórico com essa agenda – foi a primeira bolsa do mundo a aderir ao Pacto Global (2004); a primeira de mercados emergentes a se tornar signatária dos Princípios para o Investimento Responsável da ONU (2010); um dos cinco signatários fundadores da iniciativa Sustainable Stock Exchange, também da ONU (2012); em 2016, a bolsa brasileira recebeu o reconhecimento das Nações Unidas como um dos dez pioneiros do mundo na promoção dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e também foi a primeira bolsa das Américas a aderir aos princípios de empoderamento das mulheres. Finkelsztain destacou ainda o papel da B3 em estimular as demais bolsas do mundo nesse caminho: foi a quarta bolsa no mundo a lançar um índice de sustentabilidade, o ISE, em 2005; depois veio o Índice Carbono Eficiente, o programa de Relate ou Explique para relatórios de sustentabilidade e os guias de sustentabilidade para empresas listadas e fechadas.

“A sustentabilidade não é vista pela bolsa como uma temática acessória: as questões sociais, ambientais e de governança são intrínsecas aos negócios”

Em primeira mão, o presidente da B3 compartilhou a informação sobre o lançamento do movimento de sustentabilidade no setor de intermediação, no contexto do Laboratório de Inovação Financeira, que acaba de ser lançado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “Temos o grande desafio de mudar a lógica do mercado, incorporar a agenda socioambiental às políticas, práticas e estratégias de nossas empresas. Este não é um movimento intuitivo, tampouco fácil, mas necessário e irreversível”, afirmou.

O Laboratório de Inovação Financeira também foi o tema da palestra de José Alexandre Cavalcanti Vasco, superintendente de Proteção e Orientação aos Investidores da CVM, que apresentou o LAB, como tem sido chamado. Tratase de uma iniciativa pioneira, que tem entre os objetivos fomentar o debate e a criação de ferramentas financeiras que permitam o avanço do desenvolvimento sustentável no país. O LAB foi concebido como um fórum de discussão intersetorial, com a presença de instituições financeiras de desenvolvimento, intermediários financeiros privados, investidores, especialistas, reguladores e representantes de setores chave da economia. “O LAB quer entregar soluções que resultem em instrumentos financeiros que visam a ajudar o mercado de capitais a se desenvolver”, afirmou Vasco.

O LAB atuará por meio da criação de três grupos de trabalho, coordenados pela CVM e ABDE (Associação Brasileira de Bancos de Desenvolvimento), em três principais frentes. A primeira será sobre títulos verdes (green bonds), com o objetivo de fomentar um mercado nacional de títulos verdes e outros possíveis instrumentos que possam estimular emissões desses papéis e alinhar o mercado local com as melhores práticas internacionais. Outro grupo tratará de finanças verdes, com o propósito de construir um diálogo com as instituições que compõem o Sistema Nacional de Fomento (SNF) para criar, avaliar e testar inovações financeiras que deem suporte ao desenvolvimento sustentável, especialmente em setores potencialmente verdes, como energia, transporte, agricultura e água.

“O LAB atuará em três frentes, com os objetivos de fomentar um mercado nacional de green bonds e identificar oportunidades no mercado de capitais para ampliar a oferta de investimentos de impacto”

Já o terceiro grupo de instrumentos financeiros e investimentos de impacto, com a proposta de identificar oportunidades no mercado de capitais para ampliar a oferta de investimentos para negócios que promovam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. “Vamos avaliar alternativas para emissão de social bonds no Brasil, uma discussão que está sendo aprimorada e tem grande potencial”, afirmou Vasco. O grupo também considerará os resultados das iniciativas desenvolvidas até o momento, incluindo os trabalhos da Força-Tarefa Brasileira de Finanças Sociais (FTFS), avaliando possíveis sinergias com os mecanismos do Sistema Nacional de Fomento.

José Alexandre Cavalcanti Vasco