Jorge Soto

“Empresas e bancos concordam: a transição para economia de baixo carbono já está acontecendo”

Após a apresentação das recomendações da força-tarefa do FSB, seguiu-se um debate sobre as perspectivas de aplicação das normas voluntárias pelos bancos e empresas privadas. Sonia Favaretto, diretora de Imprensa, Sustentabilidade, Comunicação e Investimento Social da B3 e idealizadora do Café com Sustentabilidade quando ocupava o cargo de diretora setorial da Comissão de Responsabilidade Social e Sustentabilidade na FEBRABAN, conduziu as conversas com os especialistas Marcus Vinícius Barboza, superintendente de Riscos do Itaú Unibanco; Jorge Soto, diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem e Rodolfo Nardez Sirol, diretor de Sustentabilidade da CPFL Energia.

Segundo Sonia Favaretto, celebrar os dez anos do Café com Sustentabilidade FEBRABAN no mesmo evento em que são lançadas as recomendações da força-tarefa do FSB simboliza o quanto a sustentabilidade avançou na agenda do setor financeiro na última década. De lá para cá, o tema saiu da esfera das discussões sobre responsabilidade social corporativa e ganhou espaço em fóruns com o G20, o Fórum Econômico Mundial, as entidades reguladoras e o mercado de capitais.

O disclosure de informações sobre mudanças climáticas, que ganha o reforço e um padrão com as recomendações do FSB, já vinha sendo considerado na escolha das empresas que compõem o Índice Carbono Eficiente da B3, além de receber um capítulo à parte no questionário do ISE e fazer parte também do movimento Relate ou Explique, iniciativa da bolsa para estimular as empresas listadas a darem maior disclosure sobre informações de caráter socioambiental e de governança. “Há dez anos, talvez nem pensássemos que o tema receberia tanto engajamento de atores importantes como o Banco Central, a FEBRABAN, a B3 e a Bloomberg. Agora, o grande objetivo é que a alta liderança das empresas comece a discutir esses assuntos de forma estratégica”, disse a diretora da B3.

Sonia Favaretto
Marcus Vinicius Barboza

“Entre os benefícios das recomendações da força-tarefa do FSB, estão a transparência, a padronização e a clareza das informações relacionadas a mudanças climáticas”

O Itaú Unibanco é um exemplo de grande banco brasileiro que já incorpora a questão socioambiental em seus negócios, tendo um time inteiro dedicado a avaliar o risco socioambiental em suas operações, entre as quais estão incorporados os riscos climáticos e de transição aos quais os setores econômicos estão expostos. Os grandes benefícios que as recomendações da força-tarefa vêm trazer são transparência, padronização e clareza a essas informações, na avaliação de Marcus Vinícius Barboza, superintendente de Riscos do Itaú Unibanco. “Como consumidores de informação, esses três pilares são importantes. As empresas podem e devem usar essa situação para mostrar ao mercado e aos investidores como estão se preparando”, destacou.

Questionado pela plateia se haveria um momento em que o portfólio de negócios das instituições financeiras seria completamente descarbonizado, Barboza afirmou que a completa retirada de investimentos das energias fósseis ainda é algo difícil de prever. No entanto, destacou que o conjunto de recomendações da força-tarefa será uma ferramenta adicional para avaliação da correta alocação de capital em empresas e operações, o que permitirá, por exemplo, a oferta adequada de financiamento para projetos que tenham entre seus objetivos a redução de emissões de gases do efeito estufa. Dessa forma, haverá uma efetiva contribuição do setor financeiro para uma transição para uma economia de baixo carbono.

A precificação de carbono foi outro tema que permeou o debate, sendo vista como inevitável pelos especialistas. Na avaliação de Jorge Soto, diretor de desenvolvimento sustentável da Braskem, a transição para uma economia menos baseada em matéria-prima fóssil passa pela disclosure das informações ambientais, mas também pela incorporação das externalidades negativas do uso de fósseis nos produtos e serviços. “Não apenas é preciso que os investidores coloquem recursos em empresas que estão investindo em renováveis, mas também que esses investimentos renováveis sejam mais viáveis do que os fósseis. Para que isso seja possível, é necessário que as externalidades das emissões sejam consideradas”, afirmou Soto.

A Braskem ocupa o posto de maior produtora de resinas termoplásticas das Américas. De acordo com Soto, será uma das empresas a aderir às recomendações da força-tarefa do FSB, mesmo já mostrando transparência das informações ambientais no âmbito dos relatórios de sustentabilidade (a empresa utiliza o padrão GRI – Global Reporting Initiative) e também presta informações ao Carbon Disclosure Project – CDP). Para ele, o reporte e a transparência são peças fundamentais para o diálogo e adequada análise de risco e oportunidade. “A busca por uma referência global vai facilitar a vida do tomador de recurso e de quem oferece o recurso”, disse.

A empresa também faz análises de cenários sobre como as mudanças climáticas devem impactar os negócios, mas também pode trazer impactos positivos. Como a empresa atua no setor químico, um futuro sem energias fósseis impactaria diretamente no core business da companhia, já que as resinas são fabricadas a partir da nafta, um subproduto do petróleo. “Se imaginarmos uma sociedade carbono neutro, ainda na segunda metade desse século, tudo vai mudar. Quem desenvolver soluções para isso terá muitas oportunidades”, reiterou. De olho nesse potencial, a Braskem hoje é a maior produtora mundial de biopolímeros derivados da cana de açúcar.

Os riscos aos negócios advindos das mudanças climáticas foi o tema abordado pelo diretor de sustentabilidade da CPFL Energia, Rodolfo Nardez Sirol, que também participou do debate. O Brasil precisa estar atento aos riscos físicos, que são os efeitos que a elevação de 2°C das temperaturas pode proporcionar aos negócios e justamente onde as métricas de avaliação são difíceis; os riscos regulatórios, que trarão regulações e normas atreladas às mudanças climáticas (e onde a precificação do carbono se encaixa); e o risco ligado ao mercado consumidor, em um cenário em que empresas intensivas em carbono seriam penalizadas por essa postura.

Rodolfo Nardez Sirol

“As recomendações podem ajudar a impulsionar a competitividade dos negócios do Brasil, caso outros países coloquem restrições sobre produtos importados com base na pegada de carbono”

Para Sirol, é nítido que o Brasil, mesmo com uma matriz baseada em energia renovável, está perdendo protagonismo em relação à precificação de carbono, inclusive na América Latina. Falta, por exemplo, viabilizar programas de eficiência energética em empresas de pequeno, médio e grande porte, e uma das soluções para isso poderia ser a emissão de green bonds. Na avaliação do diretor de sustentabilidade, quanto maior o engajamento do setor financeiro, mais acelerada será a transição para a economia de baixo carbono. “Se isso é um jogo, o dono da bola é o mercado financeiro. Dá para colocar regra sim”, afirmou. Segundo ele, já existem vários padrões a serem considerados pelas instituições financeiras – os dados ESG das empresas, as informações do CDP e a carteira do ISE, por exemplo – e as empresas mais comprometidas com a redução nas emissões poderiam ter vantagens, como um spread menor nas condições de financiamento. As próprias recomendações da força- -tarefa do FSB podem ajudar a impulsionar a competitividade dos negócios do Brasil caso os países coloquem restrições sobre produtos com base na pegada de carbono. “O país poderia se transformar num grande exportador de produtos com baixa intensidade de carbono, mas para isso precisamos usar as orientações da força-tarefa para desbloquear e acelerar essa transição. A regulação virá, a mudança do clima virá, e o mercado também virá. Já não é risco, é fato”, afirmou.